O macaco-prego-galego é uma das espécies de primatas mais ameaçadas do Mundo. Existe uma estimativa de que só existam 2 mil indivíduos na natureza. E não qualquer natureza. É uma espécie endêmica do Nordeste do Brasil onde grande parte de suas populações sobrevive isolada em porções de Mata Atlântica rodeadas de cana de açúcar entre os estados de Pernambuco e da Paraíba [1].
O macaco-prego-galego é uma daquelas espécies símbolos da conservação da natureza. Quando de sua descoberta (ou redescoberta), imediatamente a espécie foi considerada ameaçada de extinção e vários esforços têm sido feitos para garantir a continuidade de sua existência. O macaco-prego-galego também é um exemplo dos caminhos, às vezes bem tortuosos, de como uma nova espécie é descrita pela ciência.
A primeira vez que as pessoas, recentemente, ouviram falar desse bicho foi em 2006, quando um pequeno grupo de dezoito macacos galegos foi avistado em um trecho de Mata Atlântica na Região Metropolitana de Recife. A partir de fotografias e da descrição de um macaco adulto vivo e anestesiado, a espécie foi chamada de Cebus queirozi por um grupo de pesquisadores de Pernambuco [2]. Polvorosa no mundo científico! Não é todo dia que descobrem uma nova espécie de primata...
Entretanto, pouquíssimo tempo depois, ainda no mesmo ano da descoberta da nova espécie, uma dupla de pesquisadores da Paraíba propôs que a espécie já era conhecida há mais de 230 anos. De acordo com os pesquisadores, o macaco galego do Nordeste seria conhecido pelo nome Simia flavia, denominação proposta pelo naturalista alemão Johann Christian Daniel von Schreber, em 1774. Após a primeira edição do Systema Naturae, de Carl Linnaeus, em 1735, todos os naturalistas europeus começaram uma corrida desenfreada para dar nomes a todos os seres vivos que aparecessem na frente deles, seguindo o sistema de classificação recém-criado. E valia também dar nome a espécies a partir de gravuras de animais e plantas que nunca tinham visto ao vivo ou descrever animais exóticos mantidos em zoológicos particulares (menageries) na Europa.
Foi o que pode ter acontecido no caso de Schreber, em 1774. Folheando um belo livro de gravuras, publicado em 1648, Schreber deve ter se maravilhado com um desenho de um macaco de pelagem dourada e de cara preta cujo nome indígena era «caitaia». A gravura tinha sido feita por Georg Marcgrave, um famoso naturalista alemão que acompanhou Mauricio de Nassau durante o período colonial holandês no Brasil. Georg Marcgrave percorreu o Nordeste entre 1638 e 1643 registrando a biodiversidade brasileira através de desenhos, pinturas e relatos. Schreber também pode ter baseado sua descrição em um animal mantido em cativeiro.
Após 1492, muitos animais foram enviados para a Europa, onde eram frequentemente mantidos nas coleções de animais da aristocracia, representando um autêntico símbolo de status que ressaltava a riqueza e a posição social de seus proprietários. Muitos macacos-pregos-gelegos foram enviados vivos à Europa na época, gerando admiração e fonte de inspiração artística. Um vistoso macaco de pelagem dourada foi representado em um afresco na cidade de Florença, pintado presumivelmente entre 1519 e 1521 [3]. A primeira representação do macaco-prego-galego?
Enfim, a nova espécie de primata não parecia ser tão nova assim no final das contas. Porém, o nome Simia flavia não estava «nos conformes» da ciência taxonômica em 2006, pois o gênero Simia, criado pelo próprio Linnaeus, não é mais utilizado há um bom tempo. Dessa forma, foi proposto que o macaco galego do nordeste se chamasse Cebus flavius [4]. E mais recentemente, com uma revisão dos gêneros de macacos pregos (capuchin monkeys, em inglês), o macaco-prego-galego agora é conhecido como Sapajus flavius.
Apesar de ser muito famosa, a espécie Sapajus flavius ainda é pouco conhecida. Traços de sua história de vida, como comportamentos sociais, alimentação e usos de ferramentas, estão começando a ser desvendados. Como sua espécie irmã da Caatinga, o Sapajus libidinosus, o macaco-prego-galego é uma espécie extremamente social, que vive em grandes grupos de até 71 indivíduos com hierarquia complexa [5]. Nas porções de Mata Atlântica que ainda ocupam, os macacos-prego-galegos se alimentam preponderantemente de frutos. Como grade parte dos remanescentes de Mata Atlântica do Nordeste são rodeados de cana-de-açucar, os macacos-prego-galegos aprenderam a explorar este recurso abundante. Em certas localidades, a cana-de-açucar representa até 50% da dieta das populações [6].
O gênero Sapajus comporta espécies de primatas muito inteligentes. O Sapajus flavius, por exemplo, é capaz de usar ferramentas para facilitar o acesso a alimentos um tanto quanto inacessíveis. Na Mata Atlântica, ele utiliza gravetos para capturar cupins. Em uma das populações isoladas da Caatinga, notadamente no estado de Alagoas, o macaco-prego-galego foi observado usando uma pedra como martelo para quebrar a casca dura de frutos [7], notadamente do licuri, palmeira típica da Caatinga.
A principal ameaça que ronda o macaco-prego-galego é a perda gradativa do seu habitat natural. Os remanescentes de Mata Atlântica onde eles ocorrem no Nordeste do Brasil são muito pequenos e cada vez mais isolados. O macaco-galego da foto, um velho macho, que já deve ter visto muita coisa na sua vida, deve estar olhando para o futuro com certa incredulidade, sem saber muito bem como serão as coisas para o seu grupo em um mundo cada vez mais ocupado, e mal frequentado, por outra espécie de primata, que se considera muito evoluída... E provavelmente ele está pouco se lixando se ele se chama Simia flavia, Cebus ou Sapajus flavius ou mesmo Cebus queirozi. Bom mesmo era quando o chamavam de caitaia. Pelo menos tinha mais floresta naquela época.
Registro realizado no dia 25 de agosto de 2026.






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